A recente proibição das operações de apostas online no Brasil, anunciada na última sexta-feira (25), trouxe um sentimento de alívio para muitos, como Kaio*, de 42 anos. Ele relatou que, após anos lutando contra o vício em jogos, a notícia representa um recomeço, apesar das severas perdas que sofreu, incluindo seu carro, casa e emprego. Atualmente, Kaio vive em um dormitório no interior de Goiás, preferindo o isolamento para proteger sua família de dívidas contraídas com agiotas, resultado de seis anos dominados pelo vício.
Em busca de reabilitação, Kaio iniciou tratamento em um Centro de Atenção Psicossocial (Caps), onde participa de grupos terapêuticos e consultas médicas, além de fazer uso de medicação diária. A Medida Provisória 1394, assinada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, revogou dispositivos da Lei 13.756 de 2018, que permitia o funcionamento das apostas. Apesar de aprovadas em 2018, as plataformas operaram sem regulamentação por cerca de cinco anos, período em que deveriam ter sido veiculados avisos sobre os malefícios do jogo, conforme exigido pela regulamentação posterior.
A psiquiatra Katia Branco, supervisora do Grupo Pro-Amiti do Hospital das Clínicas de São Paulo, explica que indivíduos em vulnerabilidade são os mais suscetíveis ao vício em jogos, sendo frequentemente atingidos por desinformação e publicidade enganosa. Segundo ela, anúncios que promovem as apostas como forma de complementar a renda exploram o desejo por retornos rápidos, tornando a prática extremamente perigosa para esse público.
Os prejuízos financeiros das famílias brasileiras com as apostas online foram expressivos. No ano passado, foram perdidos R$ 62,5 bilhões, com uma média mensal de R$ 4,7 bilhões entre outubro de 2024 e março de 2026. Esse montante representa 0,68% da Renda Nacional Disponível Bruta das Famílias. No mesmo período, as plataformas movimentaram quase R$ 351 bilhões em transações via Pix, conforme dados do Boletim Fiscal dos Estados pelo Comitê Nacional de Secretários de Fazenda (Comsefaz).
A lei de regulamentação previa que as empresas bloqueassem o acesso de apostadores compulsivos, algo que, segundo o advogado Júlio Leone, nunca ocorreu. Pelo contrário, as plataformas continuaram a enviar bônus e anúncios, o que, na visão do advogado, leva à perda total do capital dos jogadores. Kaio corrobora essa prática, relatando que seu celular não parava de receber mensagens de promoção das apostas.
Adolescentes também se tornaram vítimas, com um levantamento indicando que 20,4% dos estudantes do ensino fundamental e médio já fizeram apostas online, sendo que o início dessa prática foi registrado aos 11 anos para 9,5% dos alunos dessa faixa etária. A psicóloga Mariana Kehl ressalta a vulnerabilidade dos jovens devido ao cérebro ainda em desenvolvimento, que sente intensamente o prazer das vitórias, mas carece do controle de impulsos para frear apostas subsequentes.
Profissionais de saúde observaram em apostadores de todas as idades sinais de desesperança, afastamento social e aumento do uso de álcool. A psiquiatra Katia Branco alerta que falas sobre morte ou desejo de não viver devem ser levadas a sério, indicando a necessidade de busca por ajuda profissional para reduzir o risco de suicídio, que pode ser exacerbado por prejuízos financeiros.
O neurocirurgião Orlando Maia compara a dependência a uma busca constante por recompensa, e a psicóloga Claudia Feres, do Caps, enfatiza a importância de ajuda profissional para pacientes e famílias, pois o problema pode levar a tentativas de autoextermínio, um grito de socorro diante do sofrimento. A solução, segundo especialistas, deve ser coletiva, combatendo a fácil acessibilidade das apostas online, descritas como um “cassino no bolso”.
Diante do aumento dos problemas de saúde mental associados ao vício em jogos, o Sistema Único de Saúde (SUS) ampliou seus teleatendimentos. Com a proibição das bets, o Ministério da Saúde anunciou o reforço nas políticas de busca ativa e acompanhamento de apostadores contumazes, utilizando dados compartilhados por outros ministérios e pela Receita Federal. A Agência Brasil tem acompanhado o tema, com diversas reportagens sobre o empobrecimento e o vício em apostas online.

