O cenário político brasileiro indica uma mudança de rota para a agenda legislativa e até mesmo para o Supremo Tribunal Federal (STF) a partir das próximas eleições. A avaliação é do economista e professor da Universidade de Brasília (UnB), Jeferson Ramos dos Santos, que aponta o crescimento da participação de partidos com perfil mais conservador como um reflexo direto das prioridades do eleitorado.
Segundo o especialista, as campanhas eleitorais, especialmente em âmbito regional, priorizaram temas como segurança pública, custo de vida, valores familiares e a defesa da família. Essas pautas ganharam força e se consolidaram como dominantes nas regiões onde candidatos conservadores foram eleitos para os cargos de senador, deputado estadual e federal, e governador.
“É um recado muito claro do eleitorado”, afirmou o professor Ramos dos Santos, em entrevista à Rádio Nacional. Ele ressaltou, no entanto, que essas temáticas não foram abordadas de forma adequada pelo governo federal, o que pode ter influenciado a decisão dos eleitores.
Apesar da relevância das discussões sobre o STF, que culminaram em uma crise institucional e afetaram a imagem do órgão, o professor Jeferson Ramos dos Santos acredita que o impacto direto nas urnas foi menor. “O STF não vai às urnas”, explicou o analista, ponderando que, mesmo assim, o Supremo Tribunal Federal deve se tornar alvo de discussões legislativas com a nova maioria conservadora no Congresso.
“Nos próximos quatro anos, veremos o desenho institucional do Supremo sofrer algumas alterações, a extensão do poder individual de cada ministro e, eventualmente, até a limitação do mandato”, previu o especialista. Essas mudanças podem afetar a atuação e o poder dos ministros da Suprema Corte.
Outro ponto de destaque na agenda trabalhista, o fim da escala 6×1, que estava previsto para votação nesta semana, pode ter seu ritmo alterado. Com a significativa mudança na composição da Câmara e do Senado, o professor Jeferson Ramos dos Santos acredita que o processo pode se estender.
“O quadro político mudou sensivelmente. Geralmente, quando há incertezas, vemos nas casas legislativas uma postergação até que o quadro fique mais claro”, disse. A análise sugere que a definição sobre o fim da escala 6×1 pode demorar um pouco mais para chegar ao plenário, aguardando a consolidação das novas forças políticas.
Na disputa presidencial, a acirrada votação do primeiro turno, com a menor diferença já registrada, e o alto índice de abstenção deixam o cenário aberto para o segundo turno. “Temos 2% de diferença entre os candidatos e uma abstenção recorde. São dezenas de milhões de eleitores que não se posicionaram. Então, a campanha está aberta”, avaliou o professor, indicando que a reta final da eleição presidencial será decisiva.
O resultado da eleição presidencial, segundo o especialista, terá impacto direto na agenda da nova legislatura a partir de fevereiro de 2027. Uma eventual vitória de um candidato com agenda mais conservadora pode direcionar o foco legislativo para temas de valores e segurança pública, em detrimento de pautas trabalhistas. “O resultado da eleição presidencial vai ter impacto para reequilibrar um pouco essas pautas legislativas ou para empurrá-las ainda mais à direita”, concluiu o professor Jeferson Ramos dos Santos.

