Um relatório alarmante divulgado pela organização não-governamental Human Rights Watch (HRW) aponta para um preocupante avanço do autoritarismo e um retrocesso democrático em mais de 100 nações. O documento destaca os Estados Unidos, Rússia e China como epicentros dessa tendência, alertando para a fragilização das estruturas de direitos humanos em escala global.
Segundo o levantamento anual, as salvaguardas e proteções dos direitos humanos em todo o mundo foram significativamente abaladas pela presidência de Donald Trump e pelo crescimento do autoritarismo. A HRW defende a formação de uma “aliança estratégica” entre as democracias para a preservação da ordem internacional baseada em regras.
O diretor executivo da HRW, Philippe Bolopion, enfatizou a urgência de “conter a onda autoritária que varre o mundo”, classificando o desafio como “o de uma geração”. O relatório descreve o sistema global de direitos humanos como “em perigo”, sob pressão dos EUA e minado pela China e Rússia, o que estaria levando à destruição da ordem internacional regida por leis.
O documento cita exemplos de abusos nos EUA, como ataques à liberdade de expressão e deportações para países onde indivíduos podem sofrer tortura, caracterizando essas ações como um “ataque do governo ao Estado de Direito”. As políticas da administração Trump, somadas aos “esforços antigos” de China e Rússia para enfraquecer a ordem global, teriam “enormes repercussões em todo o mundo”.
A HRW detalha que a situação foi impulsionada pelos EUA, com Donald Trump “reduzindo a responsabilização do governo, atacando a independência judicial, desrespeitando ordens judiciais, cortando ajuda alimentar e subsídios de saúde, revogando direitos das mulheres, obstruindo o acesso ao aborto, minando reparações por danos raciais, retirando proteções para pessoas trans e intersexo e corroendo a privacidade”. Além disso, o relatório aponta o uso do poder governamental para “intimidar adversários políticos, meios de comunicação social, escritórios de advocacia, universidades, sociedade civil e até mesmo comediantes”.
A política externa de Trump também é criticada, com a alegação de um “risco de apagamento civilizacional na Europa” e o uso de “estereótipos racistas” para retratar populações. A ONG menciona ações do Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA (ICE), como o uso de “força excessiva” e prisões indevidas, culminando em mortes injustificadas em Minneapolis. A mensagem, segundo a HRW, é que “na nova desordem mundial de Trump, o poder dita o que é certo e atrocidades não são impedimentos para acordos”.
A política externa americana, segundo a organização, “subverteu os fundamentos da ordem internacional baseada em regras que procura promover a democracia e os direitos humanos”, com Trump declarando não precisar do direito internacional como restrição. O relatório também aponta o cancelamento de “quase toda a ajuda externa dos EUA” e a retirada do país de instituições multilaterais cruciais, como o Conselho de Direitos Humanos da ONU e o Acordo de Paris.
Em relação à Ucrânia, o relatório critica os esforços de paz de Trump por “minimizar a responsabilidade da Rússia por graves violações” e pressionar o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, a ceder território. A HRW observa que, com os EUA se afastando da defesa dos direitos humanos, países que poderiam liderar essa luta foram enfraquecidos por “forças internas não liberais”. O receio de antagonizar EUA e China também impede ações em defesa dos direitos humanos, com muitos governos vendo-os como obstáculos ao crescimento econômico.
A organização reconhece que o declínio democrático antecede a presidência de Trump, referindo-se a uma “recessão democrática” onde a democracia retorna a níveis de 1985. Atualmente, 72% da população mundial vive sob regimes autoritários, e Rússia e China estão “menos livres hoje do que há 20 anos”. Diante deste cenário, a HRW apela à união dos Estados que valorizam os direitos humanos para formar “uma força política poderosa e um bloco econômico substancial”.

