Especialistas em geopolítica e assuntos militares avaliam que a aparente fragilidade do cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã, aliada à contínua presença de tropas americanas no Oriente Médio, sugere que a trégua pode ser um período estratégico para o Pentágono planejar uma nova ofensiva em larga escala contra o Irã.
Rodolfo Queiroz Laterza, diretor do Instituto de Altos Estudos de Geopolítica, Segurança e Conflitos (GSEC), descreveu o acordo como uma manobra para ganhar tempo. Segundo ele, a pausa operacional permitiria o reabastecimento de munições e o preparo da Força Aérea americana para um bombardeio massivo ou mesmo uma operação terrestre. A movimentação de cerca de 500 aeronaves dos EUA na região, aproximadamente um quarto da frota militar do país, e o deslocamento de artilharia, reforçam essa análise, indicando não uma paralisação, mas uma preparação logística.
Laterza comparou a situação a padrões históricos de retirada militar dos EUA, como a operação de bombardeio no Vietnã do Norte em 1972, que precedeu uma declaração de vitória e a retirada. A continuidade dos ataques iranianos, que nesta quarta-feira (8) atingiram 25 alvos em Israel e outros países do Oriente Médio, incluindo a Arábia Saudita, também contribui para a percepção de instabilidade do cessar-fogo.
O cientista político Ali Ramos destacou a questão dos estoques de armamentos americanos. Ele apontou que, embora os EUA produzam anualmente centenas de mísseis Tomahawk e Patriot, o uso intensivo desses projéteis, com cerca de 800 mísseis Patriot gastos em uma única semana, pode indicar um esgotamento. A necessidade de reabastecimento, inclusive para aliados como Reino Unido e Japão, tornaria a manutenção de um conflito prolongado desafiadora para os EUA.
Ramos também sugere que o Irã pode ter aceitado o cessar-fogo sob pressão de países como a China e nações do Golfo, buscando se reposicionar como um ator moderado na região. Contudo, ele ressalta que Israel, sob a liderança de Benjamin Netanyahu, que busca manter a estabilidade política interna através da continuidade da guerra, tem atuado para minar qualquer acordo de paz. A ameaça iraniana de romper o cessar-fogo, em resposta aos ataques israelenses contra o Líbano, evidencia a complexidade e a fragilidade da situação, com Teerã exigindo tréguas em todas as frentes de batalha, enquanto os EUA, conforme declarado por Donald Trump, excluem o Líbano do acordo devido à presença do Hezbollah.

