Analistas de relações internacionais, geopolítica e tecnologia da informação expressam preocupação com a possibilidade de ações cibernéticas promovidas pelos Estados Unidos e manipulações orquestradas por grandes empresas de tecnologia (big techs) com o intuito de influenciar o resultado das eleições gerais no Brasil, previstas para outubro.
A recente escalada de medidas adotadas pelo governo americano, incluindo tarifas e o cancelamento de vistos para autoridades brasileiras, sugere um potencial aumento de ações no campo cibernético. Essa avaliação é compartilhada por especialistas como Reynaldo Aragon, pesquisador do Núcleo de Estudos Estratégicos em Comunicação, Cognição e Computação.
Aragon destaca um memorando assinado pelo presidente Donald Trump que autoriza o uso de big techs em operações de “vigilância cibernética” e “efeitos cibernéticos”. Segundo ele, os efeitos desse memorando são preocupantes, podendo envolver espionagem e hacking de alto nível, com a capacidade de gerar relatórios e dossiês sobre indivíduos para favorecer ou prejudicar candidatos.
O memorando justifica essas parcerias com empresas privadas sob o pretexto de combater o crime transnacional cibernético, prevendo o acesso a sistemas de informação sem autorização ou excedendo o acesso permitido. A “Operação de Efeitos Cibernético” descrita no documento autoriza atividades que podem levar à manipulação, interrupção ou destruição de sistemas e infraestruturas.
Diante desse cenário, Aragon defende que o Brasil desenvolva sua própria infraestrutura digital, ressaltando que muitos sistemas sensíveis do Estado brasileiro dependem de tecnologia de empresas americanas. Ele alerta que as ações cibernéticas podem ocorrer de forma oculta, “subterrânea”, sem deixar rastros claros de autoria, indo além do simples impulsionamento de perfis em redes sociais.
O professor de história e especialista em geopolítica, Euclides Vasconcelos, corrobora a expectativa de novas intervenções dos EUA nas eleições brasileiras, possivelmente visando desacreditar o sistema eleitoral. Ele aponta que as big techs, além de plataformas de comunicação, atuam como entidades ligadas a governos, capazes de influenciar diretamente segmentos da população.
Vasconcelos cita como exemplo a influência de notícias falsas em plataformas digitais em eventos como a imigração em massa para Ceuta, na Espanha, onde boatos disseminados nas redes sociais levaram milhares de pessoas a cruzar a fronteira. Ele também relembra a participação de executivos de grandes empresas de tecnologia na posse de Donald Trump, indicando um interesse em alinhar-se ao governo americano.
A nova doutrina de segurança dos EUA, divulgada no final de 2025, que enfatiza a “proeminência” americana sobre a América Latina, estaria por trás dessas ações. Segundo Vasconcelos, os EUA buscam consolidar o continente sob sua influência e moldar governos alinhados aos seus interesses, considerando o Brasil uma peça-chave nesse contexto, por ser o único país com potencial para desafiar a dominação estadunidense na região.

