A ilha de Porto Rico, lar do renomado cantor Bad Bunny, ostenta uma condição político-jurídica complexa e frequentemente debatida. Com uma extensão de 8.900 km², o território caribenho, que abriga cerca de 3,2 milhões de habitantes com forte predominância do idioma espanhol e da cultura latino-americana, possui um vínculo peculiar com os Estados Unidos (EUA).
Embora os porto-riquenhos gozem de livre circulação nos EUA e elejam seu próprio governador, Porto Rico não é um estado americano. Essa distinção impede que seus residentes votem para presidente e tenham representantes com poder de voto no Congresso dos EUA. Contudo, a ilha se submete às leis federais americanas, seus habitantes podem ser convocados para as Forças Armadas dos EUA e o país abriga bases militares americanas, sem, no entanto, participar ativamente das relações internacionais.
Essa ambiguidade leva especialistas e movimentos políticos a questionarem o status de Porto Rico, com muitos a classificando como uma colônia de Washington, em contraposição ao termo oficial de “Estado Livre Associado”. Para as Nações Unidas (ONU), a autonomia administrativa da ilha impede sua classificação como uma colônia clássica. No entanto, especialistas em América Latina apontam que, apesar de alguns mecanismos de autogoverno, Porto Rico permanece subordinado às decisões de Washington, sem usufruir de todos os direitos dos demais cidadãos americanos. Essa situação é descrita como uma forma de colônia com soberania administrativa restrita, um resquício neocolonial persistente no século XXI.
A influência cultural de Porto Rico foi evidenciada recentemente pela performance de Bad Bunny no show do intervalo do Super Bowl. Pela primeira vez em um evento desse porte, um artista cantou inteiramente em espanhol, enaltecendo as culturas latino-americanas e a comunidade imigrante. Bad Bunny, conhecido por suas críticas à política anti-imigração do ex-presidente Donald Trump, utilizou o slogan “Deus abençoe a América” para, em seguida, listar países latino-americanos, estendendo a bênção a todas as nações das Américas. A apresentação, que contou com bandeiras de diversos países americanos ao lado da bandeira dos EUA, gerou críticas de Trump, que a considerou “absolutamente terrível” e uma “afronta à grandeza da América”.
A música de Bad Bunny frequentemente aborda a defesa da cultura latina e a influência americana em Porto Rico. Em uma canção apresentada no Super Bowl, ele fez uma analogia com o Havaí, que, ao se tornar um estado dos EUA, teria perdido parte de sua identidade original, alertando para que Porto Rico não sofra um destino semelhante.
Historicamente, Porto Rico era uma colônia espanhola. Ao final do século XIX, com a Guerra Hispano-Americana em 1898, a ilha, juntamente com Cuba e Filipinas, passou para o controle dos EUA. Em 1917, os porto-riquenhos obtiveram cidadania americana e, em 1952, a ilha adquiriu o status de Estado Livre Associado, com autonomia administrativa interna. O professor Gustavo Menon descreve Porto Rico como um “protetorado” dos EUA, destacando que a ilha nunca foi independente e que a atuação de artistas como Bad Bunny representa uma forma de “soft power”, buscando afirmar a identidade porto-riquenha e latino-americana.
Apesar de não estar na lista de “Territórios Não Autônomos” da ONU, o Comitê Especial sobre Descolonização da ONU classifica Porto Rico como um caso de “situação colonial”. Um relatório de 2025 aponta que a dominação colonial se manifesta pela subordinação à Constituição dos EUA e às decisões do Congresso americano, que detém plenos poderes sobre áreas como defesa, relações internacionais e comércio exterior.
Porto Rico realizou sete referendos consultivos sobre seu status político desde 1967. O mais recente, em 2024, indicou preferência pela estadualidade (58%), seguido pela livre associação (29%) e pela independência (11%). No referendo de 2020, 52% votaram a favor da anexação como estado dos EUA. Contudo, essas consultas não possuem efeito vinculante no Congresso americano, servindo apenas para medir a opinião da população, mas frequentemente questionadas pela baixa participação ou pela formulação das perguntas.

