A administração de Donald Trump demonstrou sua relutância em escalar o conflito com o Irã pela segunda vez em uma semana, ao suspender a ameaça de atacar a indústria de energia iraniana. Essa decisão expõe as limitações de Washington em intensificar a guerra, diante dos impactos econômicos causados pelo fechamento do Estreito de Ormuz e pelos recentes ataques à infraestrutura energética na região do Golfo Pérsico.
A suspensão das ameaças por Trump ocorre em um cenário de manutenção do preço do barril de petróleo em torno de US$ 110, desvalorização das ações em Wall Street para mínimas de seis meses e queda nos mercados de títulos europeus e americanos. O Irã, por sua vez, afirmou que navios “não hostis” podem transitar pelo Estreito de Ormuz, enquanto Trump adiou qualquer ação militar contra as instalações de energia do país até 6 de abril.
Especialistas avaliam que as ameaças de Trump podem ser estratégicas, visando testar a eficácia de suas ações. Pedro Paulo Zaluth Bastos, professor de economia da Unicamp, sugere que o presidente americano recua ao perceber que a destruição da capacidade petrolífera iraniana poderia gerar retaliações no Golfo Pérsico. Essa retaliação poderia elevar o preço do petróleo para patamares de US$ 150 ou US$ 200 o barril, um cenário que prejudicaria a popularidade de Trump, especialmente entre eleitores independentes e até mesmo republicanos.
Bastos também ressalta que qualquer dano à infraestrutura energética regional intensificaria os prejuízos econômicos globais e nos EUA. Ele explica que a interrupção da produção de petróleo teria um impacto mais severo do que a paralisação temporária, pois a reparação de danos em infraestruturas destruídas demandaria um tempo consideravelmente maior.
Marco Fernandes, economista e membro do Conselho Popular do Brics, descreve os potenciais efeitos econômicos como “catastróficos” em caso de prolongamento da guerra ou aumento da destruição na região. Ele compara a situação a uma potencial combinação dos efeitos da pandemia de Covid-19 e da guerra na Ucrânia, ou até mesmo a uma crise comparável à de 2008, caso o conflito se estenda por alguns meses.
Fernandes também levanta a possibilidade de Trump estar ganhando tempo para uma eventual invasão terrestre do Irã, o que poderia intensificar as respostas iranianas e agravar a crise econômica. Ele alerta que o fechamento do Estreito de Bab al-Mandeb, no Mar Vermelho, por aliados do Irã, como os houthis do Iêmen, poderia desencadear um colapso generalizado no mercado de energia global.
O economista destaca a importância do gás do Oriente Médio para a produção de fertilizantes, essenciais para a agricultura, e para a fabricação de chips e semicondutores, componentes vitais para a indústria eletrônica, incluindo a produção em Taiwan. Ele aponta que a TSMC, principal produtora global de chips, possui estoques limitados de gás hélio. Além disso, Fernandes menciona que os EUA podem ter dificuldades em sustentar uma guerra de longo prazo, citando o esgotamento de 25% dos estoques do sistema antimísseis THAAD durante um conflito anterior com o Irã.
A continuidade da guerra também aumentaria a vulnerabilidade de Israel e de instalações americanas na região contra mísseis iranianos. Fernandes observa que, apesar de ser o maior produtor de petróleo, os EUA operam com preços de mercado global, o que significa que o público americano também sofreria com o aumento dos custos de combustíveis, impactando negativamente a inflação e a posição eleitoral de Trump.
O professor Pedro Paulo Zaluth Bastos acrescenta que o Irã, ao identificar um ponto de estrangulamento na economia mundial, buscará concessões favoráveis para encerrar o conflito. O fechamento do Estreito de Ormuz é visto como uma tática eficaz para pressionar por maiores benefícios, em um cenário de risco político para Trump, que enfrenta eleições legislativas em novembro e uma popularidade em declínio devido à inflação causada por tarifas de importação.

