Relatórios da Polícia Federal indicam que empresas contratadas pelo Instituto Conhecer Brasil (ICB) no âmbito do contrato de Wi-Fi da prefeitura de São Paulo repassaram dinheiro à Academia Nacional de Cultura (ANC). A informação consta na decisão do ministro Flávio Dino que autorizou a Operação Make Up, tornada pública nesta quinta-feira (10/9).
As duas ONGs são comandadas por Karina Ferreira da Gama, produtora do filme Dark Horse, e os repasses coincidem com o período de produção da obra. Somente na triangulação direta entre o ICB, uma empresa fornecedora e a ANC, R$ 6 milhões chegaram à entidade, que já havia buscado recursos públicos para produções cinematográficas.
Como já havia revelado o site The Intercept, o ICB fechou um contrato de R$ 108 milhões com a prefeitura de São Paulo para instalar pontos de wi-fi em regiões periféricas da cidade. O acordo previa remuneração mensal pela “manutenção” dos equipamentos, e a prefeitura chegou a pagar ao menos R$ 24 milhões referentes a pontos que sequer haviam sido instalados — um pagamento retroativo por serviço não prestado.
Operações identificam quatro repasses
A decisão de Dino cita quatro situações em que valores pagos pelo ICB retornaram a Karina Gama por meio da ANC. A Ultra IP, uma das empresas terceirizadas responsáveis pela instalação e manutenção dos pontos de wi-fi, recebeu R$ 8,5 milhões do ICB e repassou R$ 1,3 milhão à ANC.
A Fastfuture Tecnologias Emergentes recebeu R$ 4,3 milhões do ICB entre julho e novembro de 2025, distribuídos em seis TEDs, e encaminhou R$ 314 mil à ANC. Um segundo relatório relativo à mesma empresa aponta outros R$ 5,1 milhões recebidos do ICB, dos quais R$ 603 mil foram repassados à ANC.
Já a Complexys, que também prestava serviços ao gabinete de Mario Frias, recebeu R$ 5 milhões do ICB entre outubro de 2024 e outubro de 2025, e pagou R$ 2,6 milhões à ANC no período. Em uma segunda fase, entre outubro e dezembro de 2025, a empresa recebeu mais R$ 3 milhões do ICB e repassou R$ 1,3 milhão à ANC.
Ligações familiares e fim dos repasses
A Fastfuture pertence à esposa de André Feldman, sobrinho do ex-deputado Walter Feldman e dono da Complexys Apoio Administrativo — empresa que recebeu R$ 2 milhões do ICB por uma nota fiscal posteriormente cancelada. Segundo os relatórios, os repasses cessaram após o encerramento da produção de Dark Horse. Ainda assim, a Complexys recebeu outros R$ 1,8 milhão do ICB até abril deste ano.
A decisão de Dino também aponta que a Polícia Federal localizou apenas uma conta bancária da ANC, na qual entraram somente R$ 200 mil no período analisado — valor considerado baixo diante da movimentação identificada, “o que leva a crer que ela possui outra conta bancária, que não foi comunicada”. Com os R$ 200 mil identificados, a ANC efetuou pagamentos a diversas pessoas jurídicas que atuam na cadeia de eventos e produção cultural, segundo o ministro.
Procurado, o grupo ligado a Flávio Bolsonaro afirma que a produção do filme recebeu apenas recursos de origem privada.

