A capital do Mali, Bamako, enfrenta um cerco intensificado por grupos jihadistas, incluindo um afiliado à Al-Qaeda, um cenário que lança sombras sobre a estabilidade da Aliança dos Estados do Sahel (AES). Formada por Mali, Níger e Burkina Faso, a aliança emergiu de golpes militares que instalaram governos nacionalistas, buscando romper com a influência histórica da França na África Ocidental.
A recente ofensiva, que teve início em 25 de abril, resultou na tomada de cidades estratégicas como Kidal por grupos como o Grupo de Apoio ao Islã e aos Muçulmanos (JNIM) e a Frente de Libertação do Azaward (FLA). Estes ataques coordenados culminaram na morte do ministro da Defesa maliano, Sadio Camara, e na instalação de barreiras que visam forçar a rendição do governo de Assimi Goïta.
O cerco a Bamako, que já se arrasta por meses, impacta o abastecimento da capital, conforme explica o historiador Eden Pereira Lopes da Silva, pesquisador do NIEAAS. Ele alerta que a eventual queda do Mali, o maior país da AES em extensão territorial, poderia criar um cenário de instabilidade comparável a uma “Líbia dentro do Sahel”, afetando não apenas Burkina Faso e Níger, mas também países vizinhos como Gana e Costa do Marfim.
A região do Sahel, uma vasta área que separa o Saara da África subsaariana, é rica em recursos naturais, mas assola a pobreza e o terrorismo. O núcleo da luta contra grupos insurgentes islâmicos tem migrado do Oriente Médio para esta região, que se tornou um importante polo de recrutamento.
Em resposta aos ataques, o governo maliano condenou o que chamou de “conspiração monstruosa”, enquanto a AES classificou a ação como “bárbara e desumana”. A Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (Cedeao) havia anteriormente expulsado Mali, Burkina Faso e Níger após as mudanças de governo, intensificando o isolamento político dessas nações.
O Mali já acusou formalmente a França, em 2022, perante o Conselho de Segurança da ONU, de apoiar e financiar grupos terroristas através de violações do espaço aéreo para coleta de informações e fornecimento de armas. A França nega veementemente as acusações, lembrando seu histórico de combate ao terrorismo na região, que custou a vida de 59 soldados franceses.
Analistas geopolíticos apontam para um possível envolvimento ocidental na desestabilização da região, com o objetivo de manter o controle sobre a exploração de recursos naturais e frustrar projetos como o gasoduto da Nigéria. Em contrapartida, os países da AES têm buscado apoio militar da Rússia, através de grupos como a África Korps, ligada ao grupo Wagner.
Apesar do apoio russo, a ofensiva jihadista demonstra que o envolvimento de Moscou ainda não reverteu a situação. O JNIM, braço da Al-Qaeda no Sahel, almeja um califado islâmico que abranja Mali, Burkina Faso e Níger. Já o FLA, composto por grupos tuaregues, busca a criação de um estado para sua etnia, com histórico de atuações vinculadas à França.
A desestabilização do Sahel é vista como um interesse de diversas potências, incluindo França, outros países europeus e possivelmente os Estados Unidos, que buscam enfraquecer os governos nacionalistas. Há também a percepção de que monarquias do Oriente Médio, como Catar e Emirados Árabes Unidos, financiam grupos jihadistas que servem a interesses ocidentais.
O presidente de Burkina Faso, Ibrahim Traoré, um dos líderes da AES, classifica o terrorismo como uma expressão do imperialismo e defende que o fortalecimento militar é crucial para o desenvolvimento da nação. A luta contra o terrorismo, para ele, é uma batalha pela soberania e pelo futuro do continente.

