A Colômbia se prepara para eleger seu próximo presidente no domingo, 31 de março, em uma disputa que pode marcar uma guinada na política externa do país sul-americano. Com cerca de 41 milhões de eleitores aptos a votar, a disputa presidencial, que pode ter um segundo turno em 21 de junho, coloca em evidência a força da esquerda, que aparece à frente nas pesquisas de intenção de voto.
A possibilidade de um governo alinhado à esquerda representa uma continuidade à gestão do atual presidente, Gustavo Petro, o primeiro chefe de Estado de esquerda na história da Colômbia, cujo partido, o Pacto Histórico, tem um forte desempenho eleitoral. Petro, impedido de concorrer à reeleição, deixa um legado que seus aliados buscam preservar.
Os principais nomes na corrida, segundo levantamentos recentes, são Iván Cepeda, um filósofo e defensor de direitos humanos com laços estreitos com Petro; Paloma Valencia, senadora de direita tradicional e aliada do ex-presidente Álvaro Uribe; e Abelardo de La Espriella, um advogado e empresário com admiração por líderes como Javier Milei e Donald Trump.
Iván Cepeda, filiado ao Pacto Histórico, surge como favorito para avançar ao segundo turno. Senador e filho do também político de esquerda Manuel Cepeda Vargas, assassinado em 1994, Cepeda possui uma trajetória consolidada na defesa dos direitos humanos e na atuação legislativa. Ele foi deputado federal e senador por múltiplos mandatos, e sua vice na chapa é Aida Quilcue, uma liderança indígena.
Cepeda teve participação em negociações de paz e foi um dos articuladores da política de “Paz Total” de Petro, que visa encerrar décadas de conflito armado interno. Matheus Petrelli, pesquisador do Observatório Político Sul-Americano (OPSA) da UERJ, destaca que Cepeda não apenas herda a popularidade de Petro, mas também possui uma identidade política própria, forjada em confrontos com a direita colombiana, especialmente com Álvaro Uribe.
A posição geopolítica da Colômbia, com acesso ao Pacífico e ao Caribe, torna a eleição do país um ponto estratégico nas Américas. Enquanto Petro buscou um alinhamento regional com líderes como Luiz Inácio Lula da Silva em pautas ambientais e sociais, a eleição de um sucessor de direita, como Valencia ou De La Espriella, poderia sinalizar uma reaproximação com os Estados Unidos, rompendo com a política adotada até 2022, quando a Colômbia era um dos principais aliados de Washington na região.
A candidatura de Cepeda também se fortalece pela denúncia que fez contra o ex-presidente Álvaro Uribe no caso dos “falsos positivos”, onde milhares de civis foram mortos e apresentados como guerrilheiros. Embora Uribe tenha sido condenado em primeira instância nesse caso, a absolvição em segunda instância adiciona complexidade ao cenário. A popularidade de Petro, que aumentou significativamente durante seu mandato, também impulsiona a campanha de Cepeda, com reformas sociais e aumento do salário mínimo sendo fatores-chave.
O Pacto Histórico consolidou-se como a principal força política no Senado, superando partidos tradicionais de direita. Contudo, o especialista Matheus Petrelli adverte que o resultado final é incerto, com pesquisas apontando cenários variados para um eventual segundo turno.
Do lado da oposição, Abelardo de La Espriella representa a ascensão da extrema-direita, apresentando-se como um outsider e admirador de figuras como Javier Milei. Seu discurso foca no endurecimento da segurança e na repressão à criminalidade, atraindo um eleitorado que busca alternativas à política tradicional. Paloma Valencia, por sua vez, personifica a direita mais conservadora, fiel a Álvaro Uribe e defensora de uma postura de confronto direto com grupos armados, sem diálogo.
A questão da segurança e do conflito armado, que assola a Colômbia há mais de seis décadas, é um dos eixos centrais do debate. Enquanto a proposta de “Paz Total” de Petro e Cepeda busca uma abordagem multifacetada, combinando negociação e repressão, os candidatos de direita e extrema-direita priorizam o enfrentamento militar como única solução. Recentes episódios de violência, como expulsões em massa em Catatumbo e confrontos fatais entre dissidências das FARC, evidenciam a urgência e a complexidade do desafio.

