Mensagens obtidas por meio de apuração do Estadão mostram que o empresário Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master, recorreu diversas vezes ao ministro do STF Alexandre de Moraes para tentar interromper investigações sobre supostas fraudes financeiras na instituição. O material, extraído do aparelho telefônico do banqueiro, revela que ele pedia intervenções junto ao diretor-geral da Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues, e ao procurador-geral da República (PGR), Paulo Gonet. Procurados pela reportagem, o ministro, as autoridades citadas e a defesa de Vorcaro não se manifestaram inicialmente sobre o teor das conversas.
Os registros indicam que os contatos ocorreram de forma recorrente entre o fim de outubro e novembro de 2025, período em que o banco tentava concretizar uma suposta venda para um consórcio e lidava com investigações sobre emissão de títulos sem lastro e fraudes estimadas em R$ 12 bilhões. Quando as conversas se intensificaram, Vorcaro já havia firmado um contrato de R$ 131 milhões com o escritório de advocacia de Viviane Barci, esposa de Moraes, cuja conta já havia recebido R$ 80 milhões em repasses da instituição financeira. As interações eram enviadas em modo de visualização única por meio de capturas de tela do aplicativo de notas do celular, o que permitiu aos investigadores recuperar apenas os textos enviados pelo banqueiro, sem acesso às respostas do magistrado.
Em 30 de outubro de 2025, Vorcaro pediu que Moraes reforçasse com Andrei Rodrigues e Paulo Gonet a orientação para que “ninguém de baixo” em referência a delegados e procuradores fizesse “uma sacanagem” com o banco, enviando dias depois uma lista com nomes de sete autoridades que atuavam nas apurações preliminares. O banqueiro também relatou preocupação com a pressão exercida pelo Banco Central sobre a PF e o Ministério Público, citando supostas cobranças por parte de diretores do órgão regulador e do próprio presidente do BC, Gabriel Galípolo. Na mesma data, Vorcaro elogiou o ministro e afirmou estarem “juntos em tudo”.
As investidas prosseguiram até a véspera da primeira prisão de Vorcaro, ocorrida em 17 de novembro de 2025 no Aeroporto de Guarulhos, quando tentava embarcar para Dubai. Na tarde anterior à detenção, o banqueiro questionou Moraes sobre a possibilidade de Andrei Rodrigues adiar o cumprimento de medidas cautelares, sugerindo que detinha informações prévias sobre a deflagração da Operação Compliance Zero. Sem saber exatamente qual inquérito tramitava contra si, Vorcaro consultou advogados criminais e buscou orientações sobre eventuais petições de esclarecimento.
Atualmente, a Operação Compliance Zero soma dez fases e Vorcaro permanece preso preventivamente desde 4 de março por ordem do ministro André Mendonça, após ter passado por um período de soltura no final de novembro de 2025 concedida pelo TRF-1. Diante dos novos elementos extraídos do celular do banqueiro, o ministro André Mendonça determinou que a Procuradoria-Geral da República se manifeste formalmente sobre o conteúdo das mensagens reveladas.

