Analistas de geopolítica e relações internacionais apontam que as recentes ações militares de Estados Unidos e Israel contra o Irã, ocorridas em um curto intervalo de tempo, têm como objetivo principal promover uma mudança de regime em Teerã. Essa estratégia, segundo os especialistas, visa não apenas conter a crescente influência econômica da China, vista como um desafio por Washington, mas também reforçar a posição hegemônica de Israel no Oriente Médio.
Contrariando a narrativa oficial de que os ataques são de natureza preventiva contra um suposto programa nuclear iraniano, os estudiosos questionam a veracidade dessas alegações. A professora de relações internacionais Rashmi Singh, da PUC Minas, destaca que o momento dos ataques coincide com um aparente avanço diplomático. Segundo o ministro das Relações Exteriores de Omã, Badr bin Hamad Albusaidi, que atuou como mediador, o Irã havia concordado em não estocar urânio enriquecido, um passo crucial para a fabricação de armas nucleares, e um acordo para limitar o programa nuclear iraniano estava próximo.
Singh sugere que a decisão de atacar ocorreu porque os EUA e Israel percebem o Irã como enfraquecido, vendo uma oportunidade estratégica para instalar um governo mais alinhado a seus interesses. Ela também aponta para fatores políticos internos, como as eleições em Israel, onde o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu poderia usar o conflito para fortalecer sua posição.
O professor Robson Valdez, do IDP, concorda que a explicação baseada na contenção nuclear é improvável. Para ele, a disputa pelo poder regional e a contenção da influência iraniana são os fatores centrais. Valdez também ressalta o impacto potencial sobre a China, grande consumidora de petróleo iraniano e cujas rotas comerciais passam pelo Estreito de Ormuz.
O cientista político Ali Ramos acrescenta que a instabilidade no Irã pode ter repercussões na Ásia Central, afetando projetos geoeconômicos chineses e o possível rearmamento de grupos que se opõem a Pequim. Rodolfo Queiroz Laterza, historiador de conflitos, enquadra a ação no contexto da disputa pela supremacia econômica global entre EUA e China, buscando retirar o Irã de rotas comerciais estratégicas.
Mohammed Nadir, especialista em Oriente Médio da UFABC, descarta a justificativa nuclear e afirma que o objetivo real é impedir o surgimento de uma potência regional forte no Oriente Médio e garantir a hegemonia israelense, com apoio dos EUA. Ele compara a situação com a justificativa de “armas de destruição em massa” usada para a invasão do Iraque em 2003.
Roberto Goulart Menezes, da UnB, reitera que o programa nuclear iraniano tem sido usado como pretexto há décadas, apesar de o país ser signatário do Tratado de Não Proliferação Nuclear e permitir inspeções. Ele descreve a política dos EUA na região como imperialista e agressiva, buscando redesenhar o mapa geopolítico do Oriente Médio.
A tensão entre EUA, Israel e Irã remonta à Revolução Islâmica de 1979. As ações mais recentes ocorrem após os EUA terem abandonado o acordo nuclear de 2015, sob a administração Trump, que buscava impor inspeções internacionais ao programa iraniano. As exigências atuais dos EUA incluem o desmantelamento do programa nuclear e de mísseis balísticos, além do fim do apoio a grupos como Hamas e Hezbollah.

