Enquanto a maioria da população dos Estados Unidos se mostra contrária a uma escalada militar contra o Irã, o cenário político em Washington D.C. reflete uma profunda divisão. Resoluções no Congresso buscam limitar os poderes de guerra do presidente Donald Trump, evidenciando o embate entre a opinião pública e as decisões de seus representantes.
A base republicana, partido de Trump, demonstra apoio à ação contra Teerã, apesar de divergências internas no movimento “Make America Great Again” (MAGA). Por outro lado, grande parte dos democratas questiona a legalidade das operações, argumentando que a legislação americana exige autorização do Congresso para tais iniciativas.
Manifestações pontuais contra o conflito ocorreram em cidades americanas, reunindo poucas centenas de pessoas. Simultaneamente, comemorações pela morte do líder supremo iraniano, Ali Khamenei, foram registradas, especialmente em comunidades da diáspora iraniana anti-regime nos EUA.
A mídia americana apresenta um espectro variado de opiniões. Alguns veículos endossam abertamente a guerra, enquanto outros adotam uma postura crítica à condução do conflito por Trump, ainda que elogiem os esforços para desestabilizar o regime iraniano. Há também aqueles totalmente contrários à intervenção militar.
Rafael R. Ioris, professor de História e Política da Universidade de Denver, avalia que a oposição à guerra contra o Irã nos EUA ainda não atingiu um patamar significativo. “A insatisfação é pontual e restrita a vozes já críticas ao governo Trump. Contudo, um aumento nas baixas militares pode intensificar as críticas, dependendo da evolução do conflito”, explicou à Agência Brasil. Ele acrescenta que, no momento, os republicanos, que controlam o Congresso, não devem apresentar resistência substancial.
James N. Green, professor emérito de História da Universidade de Brown, ressalta que existe um setor contrário à guerra dentro da própria base MAGA de Trump. “A base de Trump está dividida. O nacionalismo e a defesa das tropas sempre surgem, mas atualmente a maioria da população se opõe à intervenção, e um setor minoritário, embora significativo, da MAGA está criticando a ação”, comentou Green, que também preside o Washington Brazil Office (WBO).
Pesquisas recentes indicam a tendência de oposição popular. Um levantamento da Reuters/Ipsos revelou que apenas 27% dos americanos aprovam os ataques contra Teerã. Outra pesquisa da CNN/SSRS mostrou 41% de aprovação, mas 69% de desaprovação.
O presidente Trump, no entanto, declarou que não se preocupa com as pesquisas. “Tenho que fazer a coisa certa. Isso deveria ter sido feito há muito tempo”, afirmou ao New York Post.
Mesmo a imprensa considerada mais crítica a Trump, como o New York Times e a CNN, tem demonstrado cautela em relação à guerra. O professor Ioris sugere que essa postura visa evitar acusações de falta de patriotismo em tempos de conflito. O New York Times, em editorial, classificou a ação como “imprudente” e criticou a falta de justificativa clara e autorização do Congresso, embora tenha defendido a ideia de que a eliminação do programa nuclear iraniano seria um “objetivo louvável”.
O Wall Street Journal, com viés financeiro, apoiou a ação, argumentando que seria um “erro” encerrar a guerra prematuramente antes da “destruição completa” das forças iranianas e seus grupos aliados. Michael Arria, jornalista do Mondoweiss, considera que a mídia americana, em geral, “declarou guerra ao Irã”, disseminando propaganda e apoiando a mudança de regime.
No Congresso, duas resoluções buscam limitar os poderes de guerra de Trump. O Senado está previsto para votar uma delas em breve. Democratas criticam a falta de transparência do governo sobre os objetivos e os riscos representados pelo Irã, que justificariam uma ação sem aval do Congresso. O senador democrata Tim Kaine defende que o povo americano prefere “preços baixos e não mais guerras”.
Entretanto, a unidade democrata é questionada. O senador John Fetterman, por exemplo, expressou perplexidade com a oposição à ação que, segundo ele, é a única forma de impedir o Irã de obter armas nucleares. Enquanto os democratas não formam um bloco coeso, parlamentares republicanos apoiam Trump, com alguns, como a deputada Nancy Mace, indicando que podem mudar de posição caso o conflito se prolongue.

