Em um movimento que gerou preocupação entre especialistas em geopolítica, os Estados Unidos anunciaram um acordo com 16 nações latino-americanas com o objetivo de combater cartéis de drogas na região. No entanto, a declaração de que Washington está preparado para “agir sozinho” se necessário, levanta questões sobre a soberania territorial dos países envolvidos.
A Conferência das Américas de Combate aos Cartéis, realizada em Doral, na Flórida, foi liderada pelo secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth. Durante o evento, Hegseth afirmou: “Os Estados Unidos estão preparados para enfrentar essas ameaças e partir para o ataque sozinhos, se necessário. No entanto, nossa preferência — e o objetivo desta conferência — é que, no interesse deste hemisfério, façamos isso juntos; com vocês, com nossos vizinhos e com nossos aliados”.
A política externada por Hegseth foi associada ao Corolário Trump à Doutrina Monroe, presente na Estratégia de Segurança Nacional dos EUA. Essa doutrina, datada de 1823, reafirma a influência de Washington sobre as Américas e, segundo analistas, visa impedir a presença de potências extrarregionais no continente.
Ronaldo Carmona, professor de geopolítica, classificou a fala de Hegseth como uma “ameaça gravíssima”, lembrando que as ameaças de Trump tendem a se concretizar. Ele argumenta que os EUA buscam “latino-americanizar” o problema das drogas como pretexto para intervenções, em vez de focar em suas próprias fronteiras.
A Conferência ocorreu na sede do Comando Sul dos EUA, responsável pela América Latina e Caribe. Países como Argentina, Bolívia, Chile, Equador, Peru, Paraguai, e nações da América Central e Caribe estiveram presentes. Acordos bilaterais foram firmados, com o objetivo de adaptar o marco jurídico de cada nação aos entendimentos estabelecidos.
México e Brasil reiteraram a importância do respeito à soberania nacional no combate aos cartéis. A presidente do México, Claudia Sheinbaum, defendeu uma parceria baseada em “coordenação e sem subordinação, como iguais”. O presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, incluiu o tema nas negociações com Washington.
O presidente da Colômbia, Gustavo Petro, reagiu à declaração estadunidense, argumentando que a união é fundamental para destruir os cartéis. “Se alguém está interessado em destruir os cartéis, são a Colômbia e a América Latina, onde milhões de pessoas foram assassinadas e onde a democracia foi destruída”, declarou Petro, classificando a aliança contra o tráfico como um “Pacto pela Vida e pela Paz”.
Equador e Paraguai têm demonstrado maior aproximação com os EUA sob o argumento do combate ao narcotráfico. O Paraguai aprovou um acordo que prevê a presença de militares americanos no país, com imunidade penal. O Equador também anunciou operações conjuntas contra cartéis, embora uma proposta para permitir bases militares estrangeiras tenha sido rejeitada pela população.

