Uma delegação da França e da Alemanha viajou no início deste mês para Brasília, onde autoridades dos serviços de inteligência informaram sobre suposta interferência dos Estados Unidos e da Rússia antes das eleições no Brasil, de acordo com fontes e documentos analisados pela Reuters.
Agentes da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) “confirmaram a existência de interferência tanto dos Estados Unidos quanto da Rússia”, segundo relatório das reuniões elaborado por um dos participantes. A suposta interferência dos EUA variou “de ações judiciais até interferência abertamente reconhecida”, afirmaram os funcionários da Abin, ainda de acordo com o relatório. Eles não deram detalhes sobre a suposta interferência russa.
A visita, até então não divulgada, ressalta a crescente preocupação com os esforços do presidente dos EUA, Donald Trump, para apoiar candidatos alinhados ao seu movimento político. Ela também mostra como possíveis alvos da intromissão de Washington estão trocando informações. O primeiro turno das eleições no Brasil ocorre neste domingo (3/10), com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em disputa acirrada contra o senador Flávio Bolsonaro (PL).
O Departamento de Estado americano não respondeu a pedido de comentário da Reuters. Anteriormente, o órgão negou ter tentado interferir nas eleições brasileiras. A Abin e a embaixada da Rússia no Brasil também não responderam aos pedidos de comentário. O governo russo já negou anteriormente ter interferido nas eleições de outros países.
Apoio de Trump a candidatos pelo mundo
O apoio aberto do governo Trump a candidatos de direita em todo o mundo representa um desafio para os governos em exercício quanto à questão de se tal ação constitui interferência estrangeira. Nos últimos meses, os EUA apoiaram abertamente candidatos com ideologias alinhadas em toda a Europa e na América Latina.
Os Estados Unidos ofereceram um pacote de ajuda financeira no valor potencial de US$ 40 bilhões (cerca de R$ 207 bilhões) para impulsionar o presidente argentino Javier Milei antes das eleições legislativas de meio de mandato no país, enquanto o vice-presidente dos EUA, JD Vance, viajou à Hungria para apoiar o ex-primeiro-ministro Viktor Orbán em sua tentativa de reeleição.
Autoridades na França, onde a candidata presidencial Marine Le Pen lidera as pesquisas de opinião, têm se manifestado abertamente contra qualquer intromissão dos EUA em seus assuntos internos. Elas afirmam ver a eleição no Brasil como possível sinal de alerta para a própria eleição presidencial francesa no ano que vem. Na Alemanha, onde o partido de extrema direita AfD (Alternativa para a Alemanha) ficou em primeiro lugar nas eleições em dois estados no mês passado, autoridades têm criticado regularmente o apoio do governo Trump ao partido.
Delegação da União Europeia visita o Brasil
Autoridades francesas e alemãs visitaram o Brasil entre 9 e 11 de setembro como parte de uma delegação da União Europeia (UE) para discutir a implementação da Lei de Serviços Digitais (DSA) do bloco, que exige que as plataformas on-line tomem mais medidas para combater conteúdos ilegais e prejudiciais. Os EUA têm criticado a DSA, alegando que ela visa injustamente os gigantes da tecnologia americanos.
Os objetivos da delegação europeia no Brasil também incluíam “preparar respostas coordenadas antes das eleições de 2026”, de acordo com documento ao qual a Reuters teve acesso. A equipe francesa era da Viginum, órgão destinado à detecção de desinformação estrangeira, e da Arcom, órgão regulador de mídia e comunicações. Já a delegação alemã era da Agência Federal de Redes, que regula os setores de telecomunicações, energia, transporte ferroviário e serviços postais.
A Arcom confirmou que um de seus funcionários participou da visita, assim como a Viginum. A Agência Federal de Redes da Alemanha afirmou que “uma possível interferência dos EUA nas eleições na Alemanha não foi discutida” na reunião.
Uma autoridade brasileira de alto escalão da área de segurança cibernética, que esteve presente e falou sob condição de anonimato à Reuters, disse que o número de ataques cibernéticos no Brasil quase dobrou em comparação com 2025. A fonte também pontuou que houve aumento acentuado de invasões e tentativas de phishing contra a Presidência da República, o que, segundo o funcionário, está claramente “relacionado às eleições”.

