O governo do presidente argentino Javier Milei atravessa um período de intensos desafios, marcado por uma reincidência na aceleração inflacionária, declínio na atividade econômica e industrial, e a emergência de escândalos de corrupção que abalam a confiança pública.
Após um período de desaceleração da inflação mensal de dois dígitos para cerca de 2% no início de 2025, os preços voltaram a registrar alta, atingindo 3,4% em março deste ano. O próprio Milei admitiu publicamente a gravidade do cenário econômico, classificando os dados como “ruins” em suas redes sociais.
A economia argentina deu sinais de retração, com uma queda de 2,6% na atividade econômica em fevereiro em comparação com janeiro, e um recuo acumulado de 2,1% nos últimos doze meses. O setor industrial, em particular, apresentou um desempenho preocupante, com baixa de 4% em fevereiro e uma queda de 8,7% no acumulado anual.
Especialistas como Paulo Gala, professor de economia da FGV-SP, apontam que o plano econômico de Milei, baseado na redução do Estado e austeridade fiscal, tem se mostrado “simplista” e insuficiente para reverter a crise herdada. Gala sugere que a dolarização de contratos e a sobrevalorização do peso argentino prejudicam a competitividade da indústria local, e que medidas mais profundas, como a criação de uma nova moeda, seriam necessárias.
A desindustrialização crescente e a dependência do agronegócio são vistas como tendências preocupantes, com projeções de recessão e potencial crise cambial devido à dívida em dólares.
Paralelamente à turbulência econômica, a popularidade de Milei tem sofrido com investigações de corrupção, incluindo alegações contra o chefe de gabinete Manuel Adorni. Pesquisas de opinião indicam mais de 60% de desaprovação, com a população sentindo que a promessa de combate à corrupção “anti-casta” foi quebrada.
Apesar dos desafios, a oposição desorganizada tem favorecido Milei, mantendo um cenário político incerto para as próximas eleições. Uma notícia positiva recente foi a elevação da nota de crédito da Argentina pela Fitch Ratings, reconhecendo melhorias fiscais e na balança externa, o que impulsionou a bolsa de Buenos Aires.
Em um contexto de tensão, o governo Milei também tem sido criticado por restrições impostas à imprensa, como a proibição temporária de acesso de jornalistas à Casa Rosada, medida vista como um ataque à liberdade de expressão, embora o acesso tenha sido parcialmente restabelecido.

