Um ataque devastador a uma escola de meninas na cidade de Minab, no sul do Irã, resultou na morte de 168 crianças e deixou mais de 90 feridas, marcando um dos primeiros e mais trágicos incidentes do recente conflito entre os Estados Unidos e Israel contra o Irã. A violência contra um centro educacional infantil lança uma luz sombria sobre os horrores da guerra e seus impactos desproporcionais sobre a população civil, especialmente mulheres e meninas em zonas de conflito.
As imagens chocantes do funeral das jovens vítimas, com caixões alinhados e uma multidão em luto, circularam o globo, gerando repúdio internacional. Analistas sugerem que a ofensiva, que teve como um de seus primeiros alvos uma escola feminina, visa deter a influência da China e projetar o poder de Israel na região. Paralelamente, a missão internacional da ONU demandou proteção aos civis e uma investigação rigorosa sobre o ataque, classificando-o como uma violação da Carta das Nações Unidas.
Durante décadas, as potências ocidentais utilizaram as violações de direitos humanos no Irã, particularmente contra as mulheres, como justificativa para o isolamento internacional e as sanções econômicas impostas a Teerã. No entanto, especialistas apontam que a retórica de “libertação” contrasta com a brutalidade do ataque a um local dedicado à educação infantil.
A socióloga Berenice Bento, da Universidade de Brasília, e a jornalista Soraya Misleh, doutora em Estudos Árabes, coincidem ao afirmar que o ataque desmente a ideia de que a guerra esteja ligada à promoção de direitos humanos ou democracia. Misleh destaca a longa luta das mulheres iranianas por seus direitos, exemplificada pelo movimento “Mulher, Vida e Liberdade”, surgido após a morte de Mahsa Amini em 2022. Ambas enfatizam que o destino do povo iraniano deve ser decidido por eles mesmos, e não por intervenções externas.
A ativista iraniana Narges Mohammadi, vencedora do Prêmio Nobel da Paz em 2023, que cumpre pena de prisão no Irã, simboliza a resistência feminina. Sua luta e a de outras mulheres iranianas, segundo Bento, não buscam intervenção estrangeira, mas sim a autodeterminação e a transformação social interna.
A pesquisadora Natália Ochôa, da UFRGS, critica a perspectiva ocidental que retrata mulheres muçulmanas como incapazes de agência, necessitando de “salvação” externa. Ela questiona a lógica de atacar justamente um espaço de alfabetização e aprendizado de direitos, como uma escola de meninas, se o objetivo fosse realmente o bem-estar dessas mulheres.
Apesar dos desafios impostos pelo regime, dados apontam para avanços sociais significativos no Irã nas últimas décadas, com o aumento expressivo das taxas de alfabetização e participação feminina nas universidades, embora a presença no mercado de trabalho permaneça limitada.
A autoria do ataque à escola de Minab ainda não foi oficialmente confirmada pelos Estados Unidos ou Israel. A Casa Branca afirma estar investigando, enquanto Israel nega qualquer ligação com o incidente. No entanto, o New York Times, com base em análise de imagens de satélite e vídeos, sugere que o ataque de precisão pode ter sido realizado pelas forças americanas, possivelmente como um erro de alvejamento, dada a proximidade com uma base militar iraniana alvo de ofensivas simultâneas. O major-general português Agostinho Costa aponta a existência de margem de erro em ataques com mísseis, o que poderia explicar o trágico equívoco.

