O Brasil adota uma postura de cautela diante das recentes tensões entre Estados Unidos e Irã, buscando um equilíbrio delicado em sua política externa. A estratégia brasileira é influenciada por suas relações comerciais com os EUA e pela participação do Irã no grupo Brics, uma aliança de economias emergentes focada no Sul Global.
Especialistas em relações internacionais ouvidos pela Agência Brasil apontam que essa abordagem visa preservar os interesses nacionais em um cenário geopolítico complexo. O governo brasileiro emitiu um comunicado oficial condenando a ofensiva e reforçando a defesa da negociação como via para a paz, uma posição que reflete a diplomacia tradicional do país na região.
O Ministério das Relações Exteriores enfatizou a necessidade de respeito ao direito internacional e máxima contenção por todas as partes envolvidas, visando evitar a escalada de hostilidades e proteger civis e infraestruturas. A nota oficial também desaconselhou viagens a 11 países em decorrência dos ataques.
A situação se agrava com os ataques americanos e israelenses ao território iraniano, que levaram o Irã a retaliar contra países vizinhos com bases americanas. O Irã reitera que seu programa nuclear possui fins pacíficos, enquanto os Estados Unidos, mesmo em meio a negociações sobre o programa nuclear iraniano, realizaram a ofensiva.
A complexidade da posição brasileira é analisada por Feliciano de Sá Guimarães, professor do Instituto de Relações Internacionais da USP. Ele destaca a dificuldade do Brasil em se posicionar sem alienar nem o Irã, um parceiro do Brics, nem os Estados Unidos, com quem mantém negociações comerciais importantes, incluindo a possibilidade de um encontro entre o Presidente Lula e Donald Trump ainda em março.
As negociações com os EUA referem-se a tarifas de importação impostas anteriormente pelo governo Trump, que o Brasil busca reverter ou mitigar. A justificativa americana para essas tarifas é a proteção da economia local, mas as negociações têm levado a acordos parciais e à retirada de alguns produtos da lista tarifada.
Williams Gonçalves, professor aposentado de Relações Internacionais da Uerj, ressalta que a cautela brasileira também se deve à importância do Brics, que agora conta com 11 membros plenos e 10 parceiros, todos alinhados à ideia de reformular a ordem internacional. A Rússia e a China, fundadores do Brics e aliados do Irã, também são parceiros estratégicos do Brasil.
Gonçalves relembra a cautela histórica do Brasil em situações de intervenção externa, citando como exemplo a situação na Venezuela. Ele argumenta que o Brasil, defensor da autodeterminação dos povos e da não ingerência, não pode apoiar intervenções que visem mudar regimes políticos escolhidos por suas populações.
Leonardo Paz Neves, pesquisador da FGV, avalia que os impactos econômicos do conflito para o Brasil podem ser limitados, concentrando-se em possíveis aumentos no preço do petróleo, o que geraria inflação. Ele também aponta para o comércio internacional com o Irã, um importante comprador de produtos brasileiros como soja e milho.
O Irã é o 31º maior destino das exportações brasileiras, com uma corrente de comércio bilateral de cerca de US$ 3 bilhões em 2025. A escalada do conflito e o potencial cerco naval americano ao Irã poderiam dificultar o escoamento das exportações brasileiras, afetando setores específicos da economia nacional que dependem desse mercado.

