Um mês após o início dos confrontos entre Estados Unidos, Israel e Irã, um novo relatório do Observatório de Conflitos e Meio Ambiente (Ceobs) lança luz sobre as graves consequências ambientais e climáticas que se estendem pela região. Além do trágico saldo de vidas, o conflito ameaça a saúde pública, ecossistemas terrestres e marinhos, recursos naturais e fontes de água potável.
Pesquisadores alertam que a continuidade das hostilidades intensifica os perigos. Nos primeiros 21 dias de conflito, foram registrados mais de 300 incidentes com potencial de dano ambiental em países como Irã, Iraque, Israel, Kuwait, Jordânia, Chipre, Bahrein, Catar, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Omã e Azerbaijão.
O estudo aponta que ataques a instalações industriais, residenciais e comerciais podem liberar substâncias poluentes, como o amianto, e gerar incêndios com emissão de compostos tóxicos. O uso de armamentos explosivos também contribui para a contaminação ambiental por metais pesados.
O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) já havia expressado preocupação com o aumento da violência no Oriente Médio, citando danos ambientais generalizados e solicitando o fim das hostilidades. Inger Andersen, diretora executiva do Pnuma, destacou que os ataques a depósitos de petróleo estão espalhando poluição tóxica e agravando a escassez de água, tornando um cessar-fogo urgente uma necessidade para a proteção da saúde humana e ambiental.
Irã e Líbano apresentaram reclamações às Nações Unidas, acusando Israel de cometer ecocídio – a destruição massiva e duradoura do meio ambiente. O Irã, em particular, classificou o ataque aos seus reservatórios de combustível como um ato de ecocídio, exigindo responsabilização internacional para Israel e Estados Unidos.
O relatório do Ceobs detalha os principais riscos ambientais, incluindo:
- Riscos nucleares: Ataques a instalações de enriquecimento de urânio e proximidades de reatores, além de bombardeios em áreas de extração de urânio, geram preocupações da Agência Internacional de Energia Atômica e da Organização Mundial da Saúde sobre uma possível emergência nuclear.
- Infraestrutura de combustíveis fósseis: Danos a locais de produção, processamento e armazenamento de combustíveis fósseis resultaram em incêndios e riscos de vazamentos, além de emissões adicionais de gases de efeito estufa devido a fugas de metano e queimas de emergência.
- Golfo Pérsico: Ataques a navios de carga e infraestrutura costeira, como portos e instalações petrolíferas, aumentam o risco de derramamentos de óleo, com capacidade de resposta limitada na região.
- Mar Vermelho: Ataques a navios no Mar Vermelho já causaram incidentes de poluição, ameaçando o ecossistema marinho e a pesca. Ataques retaliatórios a infraestruturas portuárias e energéticas também representam riscos de poluição costeira.
- Consequências globais: A redução na disponibilidade e o aumento dos preços de gás e fertilizantes podem levar países a retomar o uso de carvão e prejudicar a produção agrícola em nações importadoras, enquanto beneficiam as receitas de exportação de outros.
Estudos estimam que o conflito já provocou a emissão de milhões de toneladas de dióxido de carbono em poucas semanas. Especialistas alertam que países envolvidos na produção de combustíveis fósseis se tornam alvos estratégicos, e o bombardeio dessas instalações agrava as emissões de gases de efeito estufa. O setor militar global, se fosse um país, seria o quinto maior emissor de gases de efeito estufa do mundo.
Diante desse cenário, especialistas defendem o investimento em diálogo e multilateralismo como alternativas às ações militares, ressaltando que emissões significativas ocorrem em toda a cadeia militar, desde a logística até o lançamento de armamentos e a produção de equipamentos bélicos.

