O embaixador do Brasil no Irã, André Veras, avalia que uma derrubada do regime islâmico por forças militares estrangeiras seria uma empreitada extremamente difícil, com alto custo humano e econômico em escala global. Veras enfatizou que a perspectiva de uma mudança no regime iraniano, ou o fim do conflito, não poderia se basear unicamente em ataques aéreos.
Durante entrevista ao programa Alô Alô Brasil, da Rádio Nacional, o embaixador explicou que a consideração do envio de tropas terrestres se torna necessária diante das complexidades de uma intervenção militar. Ele citou o vasto e montanhoso território iraniano, além da capacidade militar do país, como desafios significativos para qualquer incursão estrangeira, diferenciando a situação atual de conflitos anteriores enfrentados pelos Estados Unidos.
“Aqui, a coisa vai exigir um pouco mais de esforço se quiserem, realmente, derrubar o regime. E acho que será uma tarefa hercúlea. Sangrenta”, afirmou Veras, reiterando a magnitude do desafio.
O diplomata observou que, dez dias após os ataques iniciais de Estados Unidos e Israel contra alvos iranianos, que teriam resultado na morte do líder supremo aiatolá Ali Khamenei e de centenas de civis, os serviços básicos como água, luz e gás continuam operacionais no Irã. A população busca manter a rotina, demonstrando resiliência infraestrutural, embora o racionamento de gasolina persista devido a limitações de refino pré-existentes e ao conflito.
Veras também destacou a solidez institucional do Irã com a rápida substituição de Khamenei por seu filho, Seyyed Mojtaba Khamenei, escolhido pela Assembleia dos Especialistas. Ele ressaltou que o sistema legal iraniano prevê processos automáticos de sucessão, garantindo a continuidade administrativa.
No entanto, o embaixador ponderou que a ascensão de Seyyed Khamenei pode intensificar críticas internas ao regime, especialmente considerando que a revolução islâmica de 1979 foi contra um sistema hereditário. A forte ligação do novo líder com a Guarda Revolucionária e setores conservadores do clero pode ser interpretada como uma resposta estatal à insatisfação interna e à oposição externa.
Quanto à comunidade brasileira no Irã, Veras informou que não houve necessidade de operações de retirada até o momento. As fronteiras terrestres permanecem abertas, servindo como rota de saída para os cerca de 200 brasileiros residentes, a maioria mulheres casadas com iranianos. A embaixada mantém contato com o Itamaraty e acompanha demandas pontuais, como documentação e vistos.
O embaixador não descarta uma solução diplomática, apesar de considerar a rendição improvável para o regime iraniano, cuja continuidade depende da resistência aos ataques. Ele acredita que o fim das sanções econômicas contra o Irã e a busca pela paz global são cruciais para a estabilidade econômica e a manutenção das rotas comerciais. Veras advertiu que uma guerra prolongada acarretaria perdas para todos os lados em uma economia globalizada, e que o aumento dos custos do conflito pode incentivar a busca por uma solução negociada.

