Em um lapso temporal de apenas 48 horas, as negociações mediadas entre Estados Unidos e Irã sobre o programa nuclear iraniano transitaram de um otimismo palpável para uma escalada militar sem precedentes, culminando em ataques e centenas de fatalidades. A reviravolta dramática foi evidenciada pelo acompanhamento das redes sociais do principal mediador, o ministro das Relações Exteriores de Omã, Badr AlBusaidi.
Os ataques coordenados por Estados Unidos e Israel a alvos iranianos ocorreram em meio a intensos diálogos diplomáticos. Representantes do governo americano e do líder supremo iraniano, aiatolá Ali Khamenei, vinham mantendo contatos. A ofensiva militar, que segundo Israel envolveu cerca de 200 caças e mais de 500 alvos atingidos, resultou em um saldo trágico de pelo menos 201 mortos e aproximadamente 750 feridos, segundo o Crescente Vermelho. Uma escola para meninas no sul do Irã foi particularmente atingida, com a morte de pelo menos 85 alunas.
A questão nuclear iraniana é um ponto de discórdia há anos. Enquanto o Irã afirma que seu programa visa fins pacíficos, os Estados Unidos e aliados, como Israel, expressam preocupações sobre possíveis aplicações militares. Um marco importante foi o acordo de 2015, firmado durante a presidência de Barack Obama, que limitava o enriquecimento de urânio em troca de alívio de sanções. Contudo, Donald Trump retirou os EUA do acordo em 2018. Em seu segundo mandato, Trump sinalizou a possibilidade de um novo acordo, reabrindo canais de negociação.
Nesse contexto de tensão e ameaças, Omã, posicionado estrategicamente no Golfo de Omã e com acesso ao Estreito de Ormuz – por onde transita cerca de 20% do petróleo mundial –, assumiu um papel crucial como mediador externo. A instabilidade na região levanta preocupações sobre um possível bloqueio do estreito pelo Irã, o que poderia desestabilizar o mercado internacional de petróleo.
A cronologia divulgada pelo mediador Badr AlBusaidi em sua conta no X (antigo Twitter) ilustra a vertiginosa mudança de cenário. Em 22 de fevereiro, ele confirmou uma rodada de conversas em Genebra com um “impulso positivo”. Dois dias depois, em 26 de fevereiro, anunciou “progresso significativo”, com discussões técnicas planejadas para Viena. Na sexta-feira (27), AlBusaidi compartilhou um encontro com o vice-presidente americano J.D. Vance, expressando gratidão pelo engajamento e esperança em “avanços adicionais e decisivos”, afirmando que “a paz está ao nosso alcance”. Ele também concedeu uma entrevista à CBS News, reforçando que um acordo para “zero armas nucleares” estava próximo.
No entanto, no sábado (28), dia dos ataques, o tom mudou drasticamente. O mediador declarou-se “consternado”, afirmando que “as negociações ativas e sérias foram mais uma vez prejudicadas”. Ele lamentou que “nem os interesses dos Estados Unidos nem a causa da paz global são bem atendidos por isso” e apelou aos EUA para não se “arrastarem ainda mais”, declarando que “esta não é a sua guerra”. A súbita transição de otimismo para “consternação” reflete a fragilidade do processo diplomático em face da escalada de hostilidades.

