Especialistas reunidos em audiência pública na Câmara dos Deputados durante a campanha Abril Marrom alertaram que três em cada quatro casos de cegueira no Brasil são evitáveis. A prevenção, segundo os debatedores, depende fundamentalmente do acesso facilitado ao diagnóstico precoce, especialmente na atenção básica de saúde. A falta de recursos e o subfinanciamento do Sistema Único de Saúde (SUS) foram apontados como os principais entraves.
A discussão, promovida pela Comissão de Saúde, teve como foco a campanha Abril Marrom, dedicada à conscientização sobre a prevenção da cegueira e à reabilitação visual. Durante o evento, foram destacadas doenças como o glaucoma e a retinopatia diabética como as maiores responsáveis pela perda de visão evitável no país.
A deputada Carla Dickson (União-RN), proponente do debate, criticou a precariedade do financiamento do setor, que resulta em baixos valores pagos por consultas na tabela do SUS. Essa situação, conforme a parlamentar, restringe a disponibilidade de profissionais e agrava as filas de espera por atendimento oftalmológico.
Roberto Murad Vessani, presidente da Sociedade Brasileira de Glaucoma, ressaltou que o glaucoma é a principal causa de cegueira irreversível globalmente. Ele informou que a condição afeta cerca de 3,5% da população acima de 40 anos, com uma alarmante taxa de 90% de casos não diagnosticados devido à ausência de sintomas em fases iniciais.
Representando a Associação de Diabetes Brasil, Lúcia Xavier mencionou a retinopatia diabética como a principal causa de cegueira em pessoas em idade produtiva. Xavier alertou que uma parcela significativa de diabéticos, aproximadamente 56%, desconhece sua condição, dificultando a detecção e o tratamento precoces.
Maria Auxiliadora Frazão, presidente do Conselho Brasileiro de Oftalmologia, enfatizou a necessidade de uma melhor organização da rede de atendimento para agilizar o acesso e garantir remuneração justa aos profissionais. Ela argumentou que os custos de prevenção da cegueira são consideravelmente inferiores aos impactos socioeconômicos de sua ocorrência.
Representantes da sociedade civil também trouxeram à tona a lentidão na incorporação de novas tecnologias no SUS. Ângela Souza, presidente da Retina Brasil, lamentou que medicamentos e implantes já aprovados demorem anos para chegar aos pacientes.
Em resposta, Gabriela Hidalgo, coordenadora de projetos do Ministério da Saúde, mencionou iniciativas como os Orçamentos de Cuidados Integrados (OCIs). Segundo ela, este modelo visa aumentar o financiamento por atendimento para agilizar diagnósticos e cirurgias de catarata. Hidalgo também informou que o ministério planeja atualizar os protocolos clínicos para o tratamento do glaucoma até 2026.

