Em 2025, aproximadamente 2 milhões de brasileiros se dedicavam ao trabalho por meio de aplicativos, configurando o cenário da chamada economia plataformizada. A maioria desses profissionais atuava como autônomos, dedicando mais horas semanais ao trabalho e recebendo remuneração inferior por hora em comparação com outros empregados do setor privado. Estes dados foram divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) através de uma edição específica da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, focada em plataformas digitais.
A pesquisa, que coletou informações de indivíduos com 14 anos ou mais utilizando aplicativos para serviços de transporte e entregas, identificou 1,959 milhão de trabalhadores plataformizados. Este contingente representava 1,9% do total de ocupados no país. O setor de transporte de passageiros por aplicativo foi o mais expressivo, com cerca de 1,2 milhão de profissionais, sendo que 1,1 milhão utilizavam plataformas como Uber e 99, e 232 mil eram exclusivos de aplicativos de táxi.
Entregadores de aplicativos de comida e produtos compunham 19,2% dos trabalhadores plataformizados, totalizando 376 mil pessoas que atuavam em empresas como Rappi e iFood. Outra categoria relevante foi a de prestação de serviços gerais e profissionais, que englobou 313 mil pessoas (16%), incluindo designers, tradutores e profissionais de telemedicina.
O setor de transporte, armazenagem e correios foi o que apresentou a maior concentração de trabalhadores plataformizados, representando 75% da sua força de trabalho. A pesquisa, ainda em fase experimental e com levantamentos anteriores em 2022 e 2024, focou em 2025 nos trabalhadores que utilizavam os aplicativos como principal fonte de renda. Em edições anteriores, a pesquisa incluía também aqueles que usavam os apps como renda complementar, o que impede comparações diretas de volume total com anos anteriores.
Ao considerar apenas os que tinham nos aplicativos sua ocupação principal, o número de 2025 alcançou 1,8 milhão, indicando um crescimento de 9,1% em relação a 2024 e 36,8% em três anos. O segmento de entregadores de aplicativos foi o único a apresentar variação de dois dígitos, com um aumento de 18,6% entre 2024 e 2025.
Em 2025, 84,4% dos que tinham os aplicativos como ocupação principal eram homens, e 47% tinham entre 25 e 39 anos. Entre motoristas de transporte (exceto táxi) e entregadores, o principal motivo para atuar nessas plataformas foi a dificuldade em encontrar outras oportunidades de emprego, seguido pela flexibilidade e por um rendimento considerado melhor do que em outros trabalhos disponíveis.
O rendimento médio mensal para o trabalho principal dos plataformizados em 2025 foi de R$ 3.147, valor similar ao dos não plataformizados (R$ 3.148). No entanto, os trabalhadores por aplicativo dedicaram uma jornada semanal de 44,7 horas, superior às 39,3 horas dos não plataformizados, resultando em um rendimento-hora médio de R$ 16,2, 12% inferior ao dos não plataformizados (R$ 18,4/hora). Este rendimento representa o saldo após a dedução de custos operacionais, como combustível.
A pesquisa também destacou a maior informalidade e menor cobertura previdenciária entre os trabalhadores por aplicativo. Em 2025, 72,1% dos plataformizados estavam na informalidade e apenas 34% possuíam cobertura previdenciária, em contraste com os 42,7% de informalidade e 63% de cobertura entre os não plataformizados. A informalidade, segundo o IBGE, abrange empregados sem carteira assinada e autônomos sem CNPJ, que carecem de garantias trabalhistas como férias e 13º salário.
Ainda que a maioria dos trabalhadores de aplicativo se declare autônoma (86,8%), o IBGE aponta uma dependência considerável dessas plataformas. Cerca de 80,2% dos motoristas de aplicativo e 78,3% dos entregadores afirmaram que o valor a ser recebido por tarefa depende totalmente das plataformas. Além disso, prazos e formas de pagamento também são majoritariamente definidos pelas empresas digitais, caracterizando uma situação distinta do trabalhador autônomo tradicional, conforme análise do pesquisador Gustavo Geaquinto Fontes.
A divulgação dos dados ocorre em um momento em que o Supremo Tribunal Federal (STF) discute a chamada “uberização” e o reconhecimento de vínculo empregatício entre trabalhadores de aplicativo e as plataformas. Enquanto representantes das categorias buscam maior proteção e evitam a precarização, as empresas do setor divergem dessa visão.

