Especialistas e parlamentares se reuniram na Comissão de Saúde da Câmara dos Deputados para debater o fortalecimento da clínica médica como pilar fundamental para a otimização do Sistema Único de Saúde (SUS). A principal tese defendida é que a especialidade atua como um eixo integrador, capaz de reduzir custos desnecessários e aprimorar a eficiência do sistema público de saúde.
O deputado Dr. Luiz Ovando (PP-MS), idealizador do debate, apontou uma distorção cultural e política que leva pacientes a buscarem diretamente especialistas focais, fragmentando o cuidado e gerando desperdício de recursos. “O clínico é o melhor caminho para influenciarmos as decisões políticas e evitarmos que o Estado gaste com exames que, muitas vezes, não resolvem o problema na ponta”, afirmou Ovando, defendendo políticas públicas que reposicionem o clínico geral no centro do atendimento.
Viviane Peterle, presidente da Sociedade Brasileira de Clínica Médica de Brasília, reforçou a visão integral do clínico, que compreende o paciente como um todo. Segundo ela, essa abordagem, quando fortalecida, permite diagnósticos mais precoces e tratamentos mais eficientes, um fator crucial diante do envelhecimento populacional e do aumento de doenças crônicas. “O clínico é o profissional que consegue integrar esse cuidado e organizar o tratamento do paciente”, explicou.
A formação médica também foi tema de debate, com preocupações sobre a qualidade dos cursos e a falta de professores e campos de estágio adequados. Deputados e representantes de sociedades médicas criticaram a expansão acelerada de faculdades de medicina, que, segundo eles, compromete a qualidade da formação e pode levar a um atendimento desqualificado. A residência médica foi apontada como a última oportunidade de formar médicos competentes.
Carlos Magno Dalapicola, do Conselho Federal de Medicina, apresentou dados preocupantes sobre a ociosidade de vagas de residência em clínica médica, apesar de ser a especialidade com maior número de profissionais. Ele destacou que um clínico bem formado é capaz de resolver cerca de 60% dos problemas de saúde na prática diária, desafogando o sistema e permitindo que especialistas se concentrem em casos mais complexos.
Fernando Otto, presidente da Sociedade de Clínica Médica de Santa Catarina, enfatizou o papel do clínico nas emergências, onde 70% a 80% dos atendimentos são de natureza clínica. Ele defendeu que investir no clínico é uma estratégia de gestão pública, pois um médico seguro e bem remunerado evita a solicitação desnecessária de exames caros. Pedro Barros, diretor da Sociedade Brasileira de Clínica Médica, complementou que o clínico deve ser o coordenador do cuidado, garantindo um tratamento coeso e eficiente.
Eduardo Freire Vasconcelos, presidente da Academia de Medicina de Brasília, resumiu a clínica médica como a “espinha dorsal do raciocínio médico”, essencial para integrar o cuidado e evitar que a assistência especializada se torne cara e desconectada. As discussões da audiência pública deverão subsidiar propostas legislativas e recomendações ao Ministério da Saúde para fortalecer a clínica médica no SUS.

