A crescente conscientização política entre os jovens quilombolas está impulsionando um aumento significativo no eleitorado dessas comunidades. A participação nas urnas é vista como uma ferramenta fundamental para a defesa de seus ideais, territórios e modo de vida.
Joaquim Moreira, de 87 anos, e sua neta Thauany Silva, de 16, da comunidade quilombola de Antinha de Baixo em Santo Antônio do Descoberto (GO), exemplificam essa nova geração de eleitores. Enquanto Joaquim é um eleitor experiente, Thauany se prepara para seu primeiro voto, demonstrando o entusiasmo em exercer a cidadania.
Dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) revelam um crescimento expressivo no número de eleitores autodeclarados quilombolas. Em 2024, eram 95.409, e a projeção para 2026 aponta para 188.371. Em Goiás, o aumento foi de 3.625 para 5.394 eleitores quilombolas.
Mayara Silva, mãe de Thauany, enfatiza a importância de acompanhar as decisões políticas, pois elas impactam diretamente o cotidiano da comunidade. “Não tem como fechar os olhos para o fato que tudo é política”, afirma.
Franciele Silva, estudante de direito de 27 anos da comunidade Rio dos Macacos (BA), destaca que o voto é essencial para a defesa dos direitos e do território. Ela utiliza seus conhecimentos acadêmicos para levar mais informações à sua comunidade sobre a importância da participação política e da defesa de suas terras.
O Nordeste concentra a maior parte do eleitorado quilombola do país, com um aumento de 51.633 em 2024 para 95.901 em 2026. Este crescimento é atribuído à maior visibilidade e ao letramento político nas comunidades tradicionais.
Bia Nunes, pesquisadora da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq), explica que o engajamento dos eleitores quilombolas se dá pela conscientização sobre o papel crucial que desempenham na preservação ambiental e da biodiversidade. “Entender, por exemplo, a importância que os territórios têm para a biodiversidade. É o trabalho que os quilombolas sempre fizeram e fazem”, ressalta.
A Conaq tem buscado parcerias e levado as pautas quilombolas a diversos espaços, promovendo a compreensão do valor do trabalho dessas comunidades para a coletividade. Bia Nunes defende o estímulo a campanhas estatais para incentivar o voto e a candidatura de quilombolas, alertando para o contexto de vulnerabilidade e ameaças que muitas lideranças enfrentam.
Rafael Costa, educador financeiro e ativista da comunidade Mesquita (GO), observa um aumento no interesse dos jovens por temas relacionados à participação e representatividade política. Ele pontua que o acesso à informação e o estudo aprofundado sobre políticas públicas são fundamentais. “Quanto mais as pessoas se informam, mais pesquisam, estudam e passam a ter mais noção da necessidade de políticas públicas, por exemplo”, contextualiza.
Costa também ressalta a importância da cooperação e do altruísmo presentes nas comunidades quilombolas para evitar golpes financeiros e desinformação, fortalecendo a consciência política e a defesa de seus territórios contra ameaças.

