Cinco dias após a eleição presidencial no Peru, o cenário para o segundo turno permanece incerto. O pleito, que contou com 35 candidatos em busca da nona presidência em uma década de instabilidade política, ainda não definiu quem disputará a vaga em 7 de junho.
Keiko Fujimori, da direita, já assegurou sua participação no segundo turno com 17% dos votos. No entanto, a segunda vaga está em aberto, com os candidatos seguintes separados por uma margem mínima de menos de 3 mil votos. O esquerdista Roberto Sánchez Palomino, alinhado ao ex-presidente Pedro Castillo, detém 12% dos votos, enquanto o ultraconservador Rafael López Aliaga, que se declara admirador de Donald Trump, figura logo atrás com 11,9%.
Até o momento, 93,3% das urnas foram apuradas. A disputa reflete profundas divisões ideológicas e pode ter repercussões nas relações comerciais da América Latina, especialmente na dinâmica entre China e Estados Unidos, segundo análise de Gustavo Menon, professor da USP.
Keiko Fujimori, filha do ex-ditador Alberto Fujimori, busca sua quarta presidência. Apesar de liderar a contagem inicial, suas anteriores derrotas em segundos turnos indicam uma resistência a sua candidatura, possivelmente ligada à herança política de seu pai. Salvador Schavelzon, especialista em América Latina, aponta que o discurso de Keiko remete à guerra contra o Sendero Luminoso, associado a elites e ao neoliberalismo nas províncias.
Do lado da esquerda, Roberto Sánchez Palomino, aliado de Pedro Castillo — deposto e preso sob acusação de tentativa de golpe —, representa um nacionalismo popular que busca atender às demandas das populações rurais e do interior. Suas propostas incluem a nacionalização de recursos naturais e uma nova constituinte. Sánchez, que já foi ministro do Comércio Exterior e Turismo, tem um histórico de atuação no Congresso peruano, o que, segundo Schavelzon, pode aproximá-lo de novas elites.
Rafael López Aliaga, ex-prefeito de Lima, é comparado a Donald Trump e Javier Milei por seu discurso ultraconservador e defesa do livre mercado. Sua candidatura, inicialmente em segundo lugar, foi ultrapassada por Sánchez com a contagem de votos rurais. Aliaga chegou a denunciar fraude eleitoral sem apresentar provas, o que foi criticado pela campanha de Sánchez.
A Missão da União Europeia, responsável pela fiscalização das eleições, não encontrou indícios de fraude até o momento. A instabilidade política no Peru é crônica, com nove presidentes em dez anos, marcados por renúncias e destituições. Especialistas apontam que, independentemente do vencedor, a governabilidade será um desafio diante da pulverização partidária e da forte influência do parlamento nas agendas governamentais.
O contexto é agravado pela recente história política do país. A eleição de Pedro Castillo em 2021, após vencer Keiko Fujimori, foi seguida por sua destituição e prisão. A vice Dina Boluarte assumiu, enfrentando protestos violentos e baixa aprovação, sendo posteriormente destituída. O poder executivo passou por diversas mãos em um curto período, evidenciando a fragilidade das instituições peruanas.

