Um extenso relatório final da Comissão Parlamentar de Inquérito do Crime Organizado (CPI) no Senado, apresentado pelo relator Alessandro Vieira (MDB-SE), revela conexões preocupantes entre facções criminosas e o mercado financeiro formal. Com cerca de 220 páginas, o documento detalha como grupos criminosos utilizam não apenas criptoativos, mas também instituições financeiras tradicionais para ocultar e dissimular a origem ilícita de seus bens.
O relator destacou que o crime organizado atingiu um nível de sofisticação que o leva a operar em simbiose com operadores do mercado financeiro. Fundos de investimento, gestoras de ativos e bancos estariam sendo empregados para lavar quantias bilionárias, além de corromper agentes públicos e influenciar o aparato estatal e regulatório. O caso do Banco Master foi citado como um exemplo emblemático dessa prática.
A lavagem de dinheiro foi identificada como o principal pilar de sustentação do crime organizado. Através da infiltração em setores como tabaco, ouro, combustíveis, mercado imobiliário e bebidas, e com o uso de fintechs e criptomoedas, a criminalidade demonstra uma operação com características empresariais que exige respostas igualmente qualificadas do Estado.
O relatório, que ainda depende de aprovação pela CPI, também aponta a necessidade de um combate mais amplo à criminalidade. Segundo Vieira, a atuação deve ir além do confronto ostensivo em territórios dominados, focando também nas cadeias econômicas que financiam essas estruturas, com atenção especial a mercados de consumo massivo e rotas logísticas.
Outro ponto de destaque é a recomendação para o aumento da fiscalização de armas e munições, considerando que falhas legislativas e de fiscalização criam um ambiente propício para desvios. O documento também aborda o papel das redes sociais no aliciamento e exploração de crianças e adolescentes, com plataformas como Facebook e Instagram sendo centrais nesse processo, agravado pela atuação passiva das empresas.
O relatório também enfatiza o grave déficit de vagas no sistema prisional, que ultrapassa 202 mil, permitindo que presídios se tornem centros de comando para organizações criminosas. Além disso, alerta para o efetivo reduzido das forças de segurança, com a Polícia Federal operando com 40% de déficit, o que compromete a capacidade do Estado de investigar e reprimir atividades ilícitas.
Por fim, o relator Alessandro Vieira recomendou o indiciamento dos ministros do STF Dias Toffoli, Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes, e do procurador-geral da República, Paulo Gonet, com base no caso do Banco Master. Adicionalmente, o relatório sugere a decretação de intervenção federal no Rio de Janeiro, devido à profunda infiltração do crime no poder público local.

