O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), divulgou uma nota nesta quarta-feira (2) na qual confirma que se reuniu com Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, no início do ano passado, para tratar de um caso sobre precatórios em julgamento no Supremo.
“O ministro André Mendonça esclarece que recebeu o empresário Daniel Vorcaro uma única vez, em março de 2025, por iniciativa do próprio empresário, e que se limitou a ouvi-lo”, diz a nota. O texto acrescenta: “No mesmo mês, atendeu também o advogado do empresário, e ainda mantém, nos registros do gabinete, os memoriais escritos recebidos por ocasião do encontro”.
A manifestação do ministro foi divulgada após o site ICL Notícias revelar que o advogado Ciro Rocha Soares, próximo de Vorcaro, enviou uma mensagem ao banqueiro discutindo um suposto encontro com Mendonça. A reunião ocorreu antes de o ministro se tornar relator do caso Master no STF, em fevereiro de 2026.
Mensagens apreendidas mostram articulação para o encontro
As conversas foram retiradas do celular de Daniel Vorcaro, apreendido pela Polícia Federal (PF) durante a Operação Compliance Zero. Em uma das mensagens, o advogado Ciro Rocha Soares escreveu a Vorcaro: “Opa, Dani!!! Preciso muito falar com você. O A.M. quer recebê-lo. E preciso agendar o quanto antes”. Em outra mensagem, enviada em 7 de fevereiro de 2025, o advogado acrescentou: “Muito importante sua ida nele junto comigo”. Vorcaro respondeu: “Marca quarta”.
Segundo o portal de notícias, o advogado retomou o assunto no dia seguinte com o banqueiro e enviou uma foto ao lado de Mendonça. “O André Mendonça disse que quer te receber junto comigo. Ele sabe, soube da situação do Banco Central toda. Eu contei. Ele já sabia que o Cezinha já tinha falado com ele”, disse Ciro Rocha Soares a Vorcaro, em referência provável ao deputado Cezinha de Madureira (PL-SP).
Nos registros, o advogado também teria dito a Vorcaro que esteve com Mendonça em uma alfaiataria: “Fala, Vorcarinho, trabalhando por você! Levei o André lá no Vasco agora, pra fazer um terno”.
Reunião tratou de caso sobre precatórios no STF
Segundo a nota do gabinete de Mendonça, a reunião de março de 2025 teve como assunto a Suspensão de Tutela Provisória (STP) 976, então sob julgamento do STF. O caso discutia créditos de precatórios de interesse do Banco Master, mas se encontrava, na data do encontro, sob pedido de vista.
O Banco Master havia comprado fatias milionárias de precatórios que estão na mira da PF por suspeita de terem sido expedidos pela Justiça antes do fim dos processos — prática apontada como irregular, já que a União ainda poderia recorrer e contestar o valor das dívidas.
Segundo Mendonça, o empresário buscou interlocução semelhante com outros integrantes do STF para tratar do mesmo assunto. O ministro afirma ainda que sua atuação jurisdicional no caso foi contrária à posição defendida pelo empresário, em linha com o posicionamento que já havia adotado historicamente em casos semelhantes.
O que estava em jogo no STF
A Suspensão de Tutela Provisória discutida na reunião foi pedida pelo governo para evitar o pagamento de precatórios milionários de interesse do Master, emitidos sem que o valor correto da dívida tivesse sido definido pela Justiça. O banco havia adquirido o direito de receber os precatórios em 2023, por meio de fundos de investimento que lhe cederam os créditos — fundos administrados por empresas atualmente investigadas na Operação Compliance Zero.
Precatórios são dívidas que a União, estados ou municípios têm de pagar após decisões judiciais definitivas, quando não cabe mais recurso. O pagamento segue ordem cronológica e depende da inclusão dos valores no Orçamento público, processo que pode levar anos — razão pela qual esses créditos costumam ser negociados no mercado financeiro. Nesse mercado, os precatórios são comprados com desconto justamente por causa da demora no pagamento: fundos e bancos apostam que, ao antecipar recursos aos credores, poderão lucrar quando o poder público quitar a dívida integralmente no futuro.
Leia a nota de Mendonça na íntegra
O gabinete do ministro enviou o seguinte posicionamento:
“Sobre a reportagem publicada nesta data, o ministro André Mendonça esclarece que recebeu o empresário Daniel Vorcaro uma única vez, em março de 2025, por iniciativa do próprio empresário, e que se limitou a ouvi-lo. No mesmo mês, atendeu também o advogado do empresário, e ainda mantém, nos registros do gabinete, os memoriais escritos recebidos por ocasião do encontro.
Em todas as ocasiões, o assunto tratado foi a Suspensão de Tutela Provisória (STP) 976, que estava sob julgamento do Supremo Tribunal Federal e que discutia créditos de precatórios de interesse do Banco, mas que se encontrava, na exata data da reunião, com pedido de vista de outro Ministro. Como já noticiado pela imprensa, o empresário buscou interlocução semelhante com outros integrantes do STF para tratar do mesmo assunto.
Registre-se, aliás, que a atuação jurisdicional do ministro foi contrária à posição defendida pelo empresário, em linha com sua posição historicamente defendida em casos semelhantes, conforme se pode verificar nos autos.
Por fim, o ministro não comenta diálogos privados entre terceiros, cujo teor não lhe cabe confirmar. Sua atuação, pública e privada, é pautada pela legalidade e pela impessoalidade.”
*com informações do CNN

