O preço do barril de petróleo Brent ultrapassou a marca dos US$ 100 nesta quinta-feira (23), registrando uma alta de 6%. O avanço ocorreu após ataques atribuídos aos houthis do Iêmen contra navios no Mar Vermelho, intensificando as preocupações com a estabilidade do fornecimento global de energia.
O fechamento do estratégico Estreito de Bab el-Mandeb para navios da Arábia Saudita, em decorrência da escalada de tensões no Oriente Médio, adiciona pressão ao comércio internacional de combustíveis. Especialistas apontam para um potencial impacto inflacionário em escala mundial.
A situação se agrava em um contexto de já reduzida oferta global de petróleo, que acumula cinco meses de cortes. Anteriormente, o fechamento do Estreito de Ormuz, por onde transitava cerca de 20% do comércio marítimo de combustíveis, já havia elevado as tensões.
Após um período de queda nos preços, que atingiram o menor valor desde o início do conflito em 1º de julho (US$ 70), o Brent vinha acumulando uma alta de 42% até o momento atual. A diretora técnica do Ineep, Ticiana Álvares, ressaltou o impacto significativo do bloqueio do Mar Vermelho para a Arábia Saudita.
“A alternativa da Arábia Saudita para escoamento do petróleo com as restrições do Estreito de Ormuz vinham sendo via oleoduto até o Mar Vermelho. Com o fechamento de Bab el-Manbed, isso não é mais possível”, explicou Álvares. Ela alertou que a interrupção afetará a oferta para os Estados Unidos, que dependem do petróleo saudita para a produção de combustíveis.
A especialista também apontou que um fechamento mais amplo do estreito impactaria severamente a Europa, devido à rota de transporte de produtos asiáticos, elevando os custos de frete.
Estima-se que aproximadamente 10% do comércio marítimo de petróleo transite pelo Estreito de Bab el-Mandeb e pelo Mar Vermelho, de acordo com a Agência Internacional de Energia (AIE). Rodolfo Queiroz Laterza, diretor do GSEC, previu perdas econômicas substanciais para a Arábia Saudita e um agravamento das cadeias logísticas globais.
Danny Zahreddine, professor de relações internacionais da PUC Minas, considera que a situação marca uma nova fase na guerra entre Irã e EUA. “Nós estamos vivendo um impasse em que, quando os americanos apertam os iranianos, eles vão apertar mais ainda os EUA e seus aliados. E, sem sombra de dúvida, o estreito de Bab el Mandeb e o seu fechamento ele vai gerar um choque ainda maior na distribuição do petróleo”, afirmou.
O professor destacou que o impacto se estende a todo o transporte marítimo entre Europa, EUA e Ásia que utiliza a rota mais curta pelo Mar Vermelho e Canal de Suez.
O historiador Laterza contextualizou que a guerra no Iêmen, anteriormente em um acordo frágil, reacendeu devido a ataques sauditas recentes. A resposta dos houthis, com capacidade militar comprovada em mísseis e drones, demonstrou sua habilidade em restringir a navegação no estreito, agravando a instabilidade dos preços globais de hidrocarbonetos.

